Proteção de crianças no futebol comunitário: guia prático

O que é o safeguarding, porque vai além da proteção de crianças em risco e os passos práticos que qualquer projeto, torneio ou liga de futebol de rua deve dar.

Publicado

Qualquer projeto que junte crianças para jogar futebol assume uma responsabilidade que nada tem a ver com futebol: mantê-las em segurança. Isso aplica-se a um treino semanal de futebol de rua tanto como a um festival mundial como o Festival 06. Este guia explica a ideia de safeguarding e transforma-a em passos práticos.

Isto é orientação geral, não aconselhamento jurídico. As regras variam de país para país. Em Portugal, a federação, a associação distrital de futebol e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) da sua zona são os sítios certos para confirmar o que se aplica.

Safeguarding e proteção de crianças

O termo inglês safeguarding é usado no Reino Unido, na Irlanda e na Austrália para designar as medidas que protegem a saúde, o bem-estar e os direitos humanos das pessoas, para que possam viver livres de abuso, dano e negligência.

O governo britânico define o safeguarding de crianças como “o processo de proteger as crianças do abuso ou da negligência, prevenir danos à sua saúde e desenvolvimento, e garantir que crescem em circunstâncias compatíveis com cuidados seguros e eficazes”. Vai além da proteção de crianças em risco: não se trata apenas de reagir ao abuso, mas de prevenir o dano à partida. E, no modelo britânico, a responsabilidade é de todos os que contactam com crianças, não só dos especialistas.

Daí resultam dois princípios para os projetos de futebol:

  1. Qualquer criança pode estar em risco, seja qual for a idade, a origem, o género ou a religião.
  2. A proteção é trabalho de todos, incluindo treinadores, voluntários, motoristas e quem leva o saco das bolas.

Passos práticos para um projeto de futebol

1. Nomeie um responsável

Uma pessoa do projeto deve ser responsável pela proteção das crianças. Todos, incluindo as crianças e os pais, devem saber quem é e como a contactar.

2. Verifique e forme os adultos

Use os procedimentos de verificação existentes no seu país para quem trabalha com crianças (em Portugal, o registo criminal para funções com menores) e não deixe ninguém trabalhar sozinho com crianças enquanto a verificação não estiver concluída. Dê a cada voluntário uma breve formação sobre o que fazer se uma criança lhe contar algo preocupante.

3. Escreva um código de conduta simples

Para os adultos: nada de situações a sós fora da vista dos outros, nada de mensagens privadas com crianças, nada de castigos físicos, nada de favoritismos. Para os jogadores: respeito, nada de bullying, nada de jogos violentos. Partilhe-o com os pais.

4. Esteja atento aos jogos que as crianças inventam

Alguns jogos de recreio causam danos reais. Em França, um jogo chamado “petit pont massacreur” permite às crianças dar pontapés em quem levou uma cueca; teve grande cobertura mediática nos anos 2000, depois de crianças terem sido hospitalizadas. Existe um jogo parecido no Reino Unido. Saiba o que se joga nas suas sessões; leia mais no nosso artigo sobre a panna e a cueca.

5. Recolha a informação certa

Contactos de emergência, informação médica e autorização para fotografias. Guarde-a em segurança e só durante o tempo necessário.

6. Planeie viagens e torneios

As deslocações multiplicam os riscos: transporte, dormidas, sítios desconhecidos. Combine antes de partir o número de adultos por criança, as regras dos quartos e os horários.

7. Saiba como reportar

Tenha um procedimento escrito: o que registar, a quem contar e quando contactar as autoridades. Nunca prometa a uma criança guardar um segredo que não pode guardar.

Crianças em situações difíceis

Muitos projetos de futebol para o desenvolvimento trabalham com crianças já vulneráveis: em pobreza, acolhidas em instituições ou a viver na rua. O Street Child World Cup mostrou que estas crianças não são só pessoas a proteger, mas pessoas com direito a ser ouvidas. A sua Declaração de Durban (2010) afirma o direito a ser ouvido, a uma casa, à proteção contra a violência e ao acesso à saúde e à educação. Proteger bem inclui ouvir as crianças.

Perguntas frequentes

O que é o safeguarding no futebol?

As medidas que um clube ou projeto toma para proteger a saúde, o bem-estar e os direitos das crianças, e para prevenir o dano, não só reagir a ele.

Quem é responsável pela proteção das crianças?

Todos os que trabalham com elas, com uma pessoa responsável que coordena.

Um pequeno projeto de futebol de rua precisa de uma política de proteção?

Sim. Mesmo uma política de uma página e um responsável identificado fazem uma grande diferença.

Conclusão

Proteger as crianças não é burocracia; é o que faz os pais confiarem-lhe os filhos. Junte este guia aos nossos guias para organizar um torneio de futebol de rua e organizar uma liga de futebol de cinco.

Fontes

  1. Wikipedia – Safeguarding
  2. Wikipedia – Nutmeg (association football)
  3. Wikipedia – Street Child World Cup

Relacionados