Mariannenplatz: a praça de Kreuzberg que recebeu o mundial do futebol de rua
Uma praça do século XIX junto ao antigo Muro, um hino de okupas e um bairro de imigração: porque a Mariannenplatz era o sítio certo para o festival de 2006.
A final do Mundial de 2006 jogou-se no Estádio Olímpico de Berlim. A final do streetfootballworld festival 06, na véspera, jogou-se numa praça com ar de parque em Kreuzberg. A escolha da Mariannenplatz não foi um acaso. Poucos lugares de Berlim dizem tanto sobre a história de divisão, imigração e contestação da cidade.
Uma praça junto ao Muro
A Mariannenplatz fica no bairro de Kreuzberg, no distrito de Friedrichshain-Kreuzberg, perto do sítio onde passava o Muro de Berlim. Prolonga a Mariannenstraße entre a Waldemarstraße e a Wrangelstraße e é uma praça grande, com carácter de parque e um amplo relvado. No extremo norte ergue-se a Igreja de São Tomé (St.-Thomas-Kirche).
A praça foi traçada entre 1841 e 1846 no Köpenicker Feld e recebeu o nome a 24 de março de 1849, em honra da princesa Mariana da Prússia (Maria Ana Amália de Hesse-Homburgo, 1785–1846). Em 1853, a cidade ajardinou-a segundo projeto do arquiteto paisagista Peter Joseph Lenné. Com o tempo, e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, perdeu esse carácter; só em 1979–1980 recuperou, em grande parte, o aspeto original.
Bethanien e a Rauch-Haus
Dois edifícios da praça contam a história da contracultura de Berlim Ocidental. O antigo hospital Bethanien é hoje a Künstlerhaus Bethanien, um centro de artes, e acolhe também o serviço de cultura do distrito.
Ao lado fica a Georg-von-Rauch-Haus, uma antiga casa ocupada com o nome de Georg von Rauch, membro do movimento “Haschrebellen”, morto a tiro por um polícia. O músico Rio Reiser viveu lá durante algum tempo, e a sua banda, Ton Steine Scherben, imortalizou a praça no hino dos okupas Rauch-Haus-Song, do álbum Keine Macht für Niemand (“Nenhum poder para ninguém”), de 1972. Em 2017 foi apresentada na assembleia distrital uma proposta para rebatizar parte da praça como “Rio-Reiser-Platz”.
A praça guarda também várias camadas de memória: uma fonte dos bombeiros com esculturas de Kurt Mühlenhaupt, um memorial da Primeira Guerra Mundial a que o distrito acrescentou de propósito uma placa que recusa o seu tom heroico e, desde 29 de junho de 1990, uma estela em memória do resistente Wilhelm Lehmann, assassinado pelos nazis em 1943.
Um bairro de imigração
Durante a Guerra Fria, Kreuzberg foi uma das zonas mais pobres de Berlim Ocidental. A partir dos anos 60 e 70, a Alemanha Ocidental convidou Gastarbeiter (trabalhadores convidados) da Turquia, Itália, Grécia e Jugoslávia, e muitos fixaram-se em Kreuzberg. Em 2006, o ano do festival, 31,6% dos habitantes de Kreuzberg não tinham nacionalidade alemã. Antes da Segunda Guerra Mundial, o bairro tinha também uma grande comunidade judaica, quase toda deportada e assassinada no Holocausto.
Um torneio que queria deixar uma mensagem “contra a violência, a xenofobia e o racismo”, nas palavras do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, dificilmente encontraria um bairro mais adequado.
Palco de grandes eventos
A Mariannenplatz tem um palco ao ar livre e recebe com frequência festas de rua e de família. O Myfest realiza-se lá todos os 1 de maio desde 2003. A 21 de junho de 2002, a banda Die Ärzte deu na praça o concerto dos 20 anos, para 35 000 pessoas. E de 2 a 8 de julho de 2006, como regista a Wikipedia alemã, decorreu ali o “campeonato do mundo de futebol de rua”, que terminou com a final MYSA–KickAIDS.
O diário alemão taz resumiu a semana no título: “Der Mariannenplatz war bunt”, “A Mariannenplatz encheu-se de cor”.
Perguntas frequentes
Onde fica a Mariannenplatz?
Em Berlim-Kreuzberg, perto do antigo Muro, entre a Waldemarstraße e a Wrangelstraße, com a Igreja de São Tomé no extremo norte.
O que aconteceu na Mariannenplatz em julho de 2006?
O streetfootballworld festival 06, um campeonato mundial de futebol de rua para 22 equipas juvenis de projetos sociais, de 2 a 8 de julho de 2006.
O que é a Rauch-Haus?
Uma antiga casa ocupada na Mariannenplatz, celebrizada pelo Rauch-Haus-Song dos Ton Steine Scherben (1972).
Conclusão
Os organizadores podiam ter montado os campos em qualquer sítio de Berlim. Escolheram uma praça marcada pelo urbanismo prussiano, pelo Muro, pelos okupas e pela imigração. Leia como terminou essa semana na final do Festival 06, ou conheça o legado do Mundial de 2006.